Vulcão Vilarrica – Subir um vulcão ativo não é uma decisão racional

Vulcão vilarrica, em Pucón, Chile, atrás de uma floresta e um lago

Vulcão Vilarrica, em Pucón, Chile

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Quando falei com a minha mãe que eu ia escalar o Vulcão Vilarrica, no Chile, ela perguntou:

Por que?

E eu não soube responder.

Subir um vulcão ativo não é uma decisão racional. Você se expõe a uma série de riscos (queda, intoxicação pelo enxofre, erupção…) em troca de alguns minutos de adrenalina, umas fotos legais e uma história para contar. E se tudo correr conforme o planejado, essa história nem vai ser tão boa assim.

Por mais que esta seja a verdade, pensando racionalmente, subir um vulcão ativo não é uma decisão racional.

A resposta certa é que nós fomos feitos para fazer coisas incríveis, e para ver coisas incríveis. Estas coisas costumam ser perigosas. E este perigo faz parte do prazer, da sensação de estar vivo.

Quando você está na borda de um vulcão, você está sujeito ao acaso. E nessa hora, você valoriza cada segundo ao seu redor, e esses segundos ficam gravados na sua memória para sempre, duram uma vida inteira.

Voltando ao diálogo na minha casa.

Respondi apenas que seria uma experiência legal, e a conversa mudou de assunto.

Alguns meses depois, meu avião pousava em Temuco, aeroporto próximo à cidade de Pucón, no Chile.

Vilarrica

Pucón tem cerca de 30 mil habitantes e fica na região dos lagos do Chile, entre Santiago e a Patagônia. No idioma Mapuche, tribo local, significa “entrada da cordilheira”.

A cidade é movida pelo turismo, e as principais atrações atendem pelo nome Vilarrica: um vulcão, um lago e um parque nacional. Nos meses mais quentes os visitantes praticam atividades aquáticas no lago e fazem a trilha até o topo vulcão Vilarrica. Nos meses de inverno, as encostas do vulcão viram grandes pistas de esqui, e as fontes térmicas são mais desejadas que o lago.

Pucón é uma cidade charmosa, tem arquitetura colonial típica, bons hotéis e restaurantes. Mas o que atrai a todos que estão ali é a natureza selvagem que a cerca. Além do vulcão Vilarrica e do lago com o mesmo nome, rios, cachoeiras e cavernas estão por toda a parte.

Depois de dirigir cerca de duas horas de Temuco a Pucón em uma estrada em excelente estado de conservação e rodeada de rios, lagos e montanhas, cheguei ao meu hotel. Fiquei no Hotel Rangi Pucon, que fica perto do lago e da rua principal da cidade. O hotel é novo e o serviço excelente. A vista para o vulcão Vilarrica, das janelas ou do terraço, torna a experiência ainda melhor.

Logo que cheguei fui até as agências na rua Bernardo O’Higgins para escolher com qual eu iria subir o vulcão. Depois de pesquisar a região, decidi ir com a Aguaventuras. A subida estava marcada para o dia seguinte.

Preparação

No dia anterior a subida, precisei experimentar toda a roupa que seria usada na subida, incluindo as botas de neve. Também estão inclusas aí calças e jaquetas específicas para neve, luvas, capacete, máscara de gás e picareta de neve. Roupas e equipamentos escolhidos, agora era só aguardar a manhã seguinte.

A realização da subida depende muito das condições climáticas. Se a visibilidade estiver ruim, ou os ventos estiverem fortes, a trilha é cancelada. Então rola uma expectativa até a definição, que só ocorre na hora de partida (6 da manhã).

Acordei cedo e o dia estava nublado, mal sinal. Parecia que a excursão teria de ser cancelada. Para falar a verdade o dia estava tão feio e frio que pensei até em voltar a dormir e nem ir encontrar os guias.

Felizmente eu fui.

Ao chegar na agência o dia já estava abrindo, e a previsão era de condições perfeitas no vulcão vilarrica. O grupo que subiria junto naquele dia tinha 8 clientes e 2 guias.

Sabe todo aquele equipamento e roupas que experimentei no dia anterior? Pois é! Virou uma mochila de uns 10 quilos. Ainda levei comigo água, câmera e comida. Olhando para aquela mochila, naquela manhã gelada, bateu aquele típico pensamento de “onde fui me meter”.

É, subir um vulcão ativo não é uma decisão racional.

Preparações encerrada, entramos na van rumo ao vulcão Vilarrica.

Vulcão Vilarrica

O vulcão Vilarrica tem 2847 metros de altura e é considerado um dos mais ativos da América do Sul. A sua cratera tem 200 metros de diâmetro e no seu interior existe um poço de lava, que varia de profundidade. O vulcão expele gases tóxicos frequentemente, sinal de sua intensa atividade.

Os indígenas da tribo Mapuche chamam o vulcão de Rucapillán (casa do Pillan). O Pilllan é um espirito que habita o vulcão segundo as crenças deste povo. Ao contrário do que muitos afirmam, não se trataria da “casa do demônio”. O Pillan que habita o vulcão Vilarrica é considerado um espirito associado ao Bem, ao contrário do espirito associado ao vulcão Llaima, associado ao Mal.

A erupção mais recente do Vilarrica ocorreu em março de 2015. A atividade sísmica é monitorada constantemente na região, e os técnicos perceberam um aumento constante naquele mês, aumentando o alerta a moradores. Na madrugada do dia 3, ocorreu a erupção, e a cidade de Pucon foi evacuada.

A subida

A van levou apenas uns 30 minutos para chegar ao vulcão. Ao descer, foi hora de começar os preparativos para a subida.

O começo é feito em solo pedregoso. Não há uma trilha demarcada, apenas seguimos o guia em fila indiana montanha acima. A maior dificuldade aqui é a mochila pesada.

É possível pegar um teleférico para ganhar tempo. Recomendo que faça isso, caso contrário você vai ter que subir mais rápido para alcançar o restante do seu grupo e chegar a tempo na cratera.

Depois de uma hora subindo, fizemos a transição para a neve. Paramos para descansar, comer, e colocar os grampos nas botas. A partir deste ponto também foi preciso usar a picareta de neve.

Eu já tinha uma experiência de trilha na neve, na geleira Perito Moreno, que foi tranquila. Mas aqui a caminhada na neve foi extremamente lenta e cansativa. Em alguns pontos, a cada passo eu afundava até o joelho na neve. E eventualmente escorregava e deslizava alguns metros montanha abaixo.

Os guias fazem um treinamento exaustivo sobre como usar a picareta e os grampos para se equilibrar e caminhar com eficiência e segurança no gelo. Este treinamento é fundamental, visto que estes equipamentos têm pontas afiadas que podem machucar, e que o seu mal-uso pode causar ferimentos no próprio usuário ou em colegas.

Excursão ao vulcão vilarrica, em pucón, chile. Viajantes andam na neve com ajuda dos guias

Trecho de neve da subida ao vulcão Vilarrica

Durante este trecho, a minha situação era a seguinte: eu estava muito cansado em função da altitude, da mochila pesada e da dificuldade de andar na neve. Escorreguei várias vezes, em situações que podiam ter acabado mal. Subir um vulcão ativo não é uma decisão racional.

Que eu me lembre, foi a única trilha que já fiz onde pensei em parar no meio do caminho. Um fator essencial para completar a ascensão são os guias, que fazem tudo o que podem para ajudar na subida. Eles vão na frente criando pequenos degraus na neve para facilitar para quem vem atrás, marcando pontos de apoio e ditando um ritmo adequado.

A maior motivação para seguir era olhar para o alto e ver a cratera do vulcão Vilarrica cada vez mais próxima. Quando o vento soprava era possível sentir o pesado cheiro do enxofre quente que emanava da montanha. Nessas horas ficávamos prontos para colocar as máscaras de proteção.

A subida na neve levou cerca de 3 horas. O final da caminhada foi fácil. A sensação de que o pior ficou para trás e a adrenalina de ver a cratera fizeram com que a dor e o cansaço ficassem para trás.

Mochila e picareta de gelo no topo do vulcão vilarrica, em pucón, no chile

Chegando na cratera, finalmente foi possível tirar a mochila das costas.

A cratera

Finalmente foi possível tirar a mochila das costas e aproveitar. No topo do vulcão é difícil decidir para onde olhar. A cratera, enorme e profunda exalando fumaça e gases quentes contrasta com o exterior. Ao seu redor, a quase 3 mil metros de altitude, vento frio, neve, lagos e outros vulcões no horizonte.

Cratera do vulcão Vilarrica, em pucón, chile, expelindo enxofre

Cratera do vulcão Vilarrica, expelindo enxofre

É preciso caminhar com cuidado ali. A superfície, toda coberta de neve, é irregular e o solo frágil e escorregadio. Um desequilíbrio pode resultar em queda, inclusive na cratera. Além disso, é preciso cuidado com os gases. O enxofre, expelido em grandes quantidades, é extremamente tóxico e pode matar. Por esta razão fiquei com a máscara de respiração nas mãos o tempo todo, e a qualquer mudança na direção do vento já colocava ela no rosto.

Ficamos curtindo a cratera do vulcão Vilarrica durante uma meia hora e já nos preparamos para descer.

A descida

A descida do vulcão é surreal. Depois de todo o cuidado, preparação e orientação na subida, para descer é só se jogar (literalmente!).

Entre tudo o que trouxemos na mochila está uma pranchinha de plástico que desliza na neve. Assim é possível utilizar ela para fazer um ski-bunda na neve vulcão abaixo! A picareta de neve, antes usada de apoio, é usada para frear.

Fiquei entre os últimos do meu grupo a descer. Os guias nos levaram ao lugar mais adequado para iniciar a descida. Um ficou lá embaixo, indicando onde parar e o outro ficou nos auxiliando a descer.

Nas primeiras vezes não consegui pegar muita velocidade, e nem precisei frear. Depois de pegar o jeito comecei a ter mais controle. Entre os pontos de escorregar caminhávamos alguns minutos, até os melhores locais.

A descida levou cerca de meia hora, até onde o vulcão estava coberto de neve. A partir de lá, mais uma hora de caminhada até nossa van. Mais meia hora na estrada e cheguei ao hotel. Cansado, com bolhas nos pés, pés doendo. Mas tudo isso era muito pequeno perto das lembranças da cratera, dos lagos e vulcões no horizonte, e dos escorregões (propositais e acidentais) no gelo.

Do jeito que eu imaginava que seria! Subir um vulcão ativo é uma decisão racional!

Outras atrações em Pucón

Parque nacional Huerquehue

O parque tem uma vegetação típica de mata de araucária, como se vê em algumas regiões do sul do Brasil. Também tem lagos enormes e montanhas. É ótimo para passear um dia, saindo cedo de Pucón e voltando no final da tarde. Da rodoviária da cidade saem ônibus em diferentes horários para o parque.

Termas geométricas

As termas são um conjunto de 17 piscinas de águas quentes situadas em um canion, ideais para relaxar os músculos após a subida ao vulcão Vilarrica. São muito legais de visitar no inverno, quando faz muito frio do lado de fora, chegando até a nevar. E com todo esse frio, o chão coberto de gelo, você vai estar em uma água aquecida a 40 graus, numa boa, enquanto a neve cai. O lugar tem uma temática asiática e um café. Fica a uma hora e meia de Pucón, em uma estrada bem ruim. Da para ir até Conaripe e pegar transporte de lá.

 Fatos e dicas

Melhor época para subir o vulcão Vilarrica: Dá para fazer o ano inteiro se as condições climáticas do dia permitirem. Eu fui em novembro. Mas em algumas épocas do anoa subida é mais fácil que em outras:

  • Primavera e verão (outubro a abril): Período onde a subida é mais fácil, por ter menos neve.
  • Outono (abril a junho): Mais díficil que na primavera e verão, por ter mais neve.
  • Inverno (julho a setembro): A época onde a subida é mais difícil, e quando tem mais neve no vulcão Vilarrica.

Hotel em Pucón: fiquei no Hotel Rangi, superou minhas expectativas.

Agência: fui com a Aguaventura. Foram bem profissionais, recomendo.

Preço: 85.000 pesos

Hora de saída: entre 5 e 6 da manhã.

Duração: Dia inteiro, a chegada ao hotel ocorre por volta das 17 hs.

  • Agende o tour assim que chegar na cidade, o passeio depende das condições climáticas.
  • Experimente suas roupas e equipamentos antes, para ter certeza de que estão confortáveis.
  • Use o teleférico se estiver disponível. Se não usar vai ter que andar mais e mais rápido para alcançar o resto do seu grupo.

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